Iramaia, 30 de setembro – A edição deste ano da tradicional Festa da Gruta, encerrada no último final de semana, deixou um saldo contraditório entre seus participantes. Se por um lado barraqueiros e frequentadores avaliaram que o investimento valeu a pena, principalmente devido ao grande público do primeiro dia, por outro, a organização do evento foi alvo de críticas contundentes por falhas na infraestrutura de apoio, na acessibilidade e pelo tom político exagerado que marcou a programação.
Para Vitor Fernandes, 18 anos, barraqueiro de Jaguaquara, o valor de R$ 500,00 a R$ 1.000.00 pelo espaço foi justo, e as atrações e horários das bandas permitiram bom movimento. No entanto, ele aponta a falta de banheiros privativos ou áreas de banho para barraqueiros como um dos principais problemas. “Tivemos que alugar casas para os três dias de festa. Em outras cidades, os organizadores costumam ceder esse espaço para compensar o investimento e dar um apoio básico”, relatou. Outro ponto criticado por Fernandes foi a exigência de agendamento presencial para a locação do ponto, o que aumentou os custos logísticos.
A oscilação no público entre os dias também chamou a atenção. O primeiro dia foi unanimemente considerado o melhor, com grande presença de pessoas. Entretanto, o segundo dia registrou público bem abaixo do esperado, frustrando parte dos foliões. A grade de programação foi questionada por frequentadores como Carlos Antônio, 43 anos, de Salvador, que criticaram a prática de colocar artistas locais em horários pouco privilegiados, como no caso do cantor Biel Vaqueiro.
Acessibilidade e atrações infantis: pontos cegos
Um dos aspectos mais criticados foi a ausência de acessibilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A falha foi considerada grave, principalmente pelo esforço que esse público teria para acessar uma rota turística da Chapada Diamantina. Já as atrações infantis se restringiram a parques de diversão com preços considerados elevados pelos pais, cobrando a partir de R$ 8,00 por apenas cinco minutos de brincadeira.
Segurança é elogiada, presença política dividiu opiniões
A segurança do evento foi um dos pontos positivos. A Polícia Militar da Bahia manteve a ordem em todo o percurso, e os seguranças privados realizaram revistas ágeis, evitando filas longas, o que foi considerado um acerto da produção.
A presença de autoridades também foi notada. O prefeito circulou entre o público e chegou a dançar com foliões no último dia, gesto bem avaliado. Já a primeira-dama foi criticada por manter-se distante da população carente. O vice-prefeito, Waldemar Ramos, foi elogiado por sua presença constante em todo o evento. Outro ponto destacado foi a surpresa positiva da apresentação de um grupo de pagode, que promoveu um encontro de gerações ao misturar repertório clássico e contemporâneo, agradando diferentes públicos.
Avanços em relação a edições anteriores?
Uma questão que merece elogio foi a decisão dos organizadores de não cobrarem taxa de serviço dos moradores da cidade. Essa foi a verdadeira novidade da festa, já que, em gestões passadas, a cobrança acontecia de forma indistinta e alcançava valores estrondosos de até R$ 1.000,00 por morador que atuasse como autônomo e desejasse vender comidas e bebidas no circuito da festa.
Momento de maturidade artística
Entre os artistas locais, destacou-se a atitude do cantor Biel Vaqueiro, que dividiu o palco com o amigo de infância Gustavo, O Original. O gesto foi interpretado como sinal de maturidade artística e valorização das raízes culturais. Ainda assim, houve críticas quanto ao espaço reduzido dado aos talentos locais, considerados “preenchimento de lacunas” na programação.

Um balanço amargo
No balanço final, a Festa da Gruta mostrou acertos no entretenimento principal e na segurança, mas revelou fragilidades em pontos fundamentais como logística para barraqueiros, valorização de artistas locais, inclusão e acessibilidade.
Se levarmos em conta a ampla divulgação feita pela equipe de marketing, o evento ficou aquém do sucesso esperado pelos organizadores, segundo fonte ligada à produção. A percepção geral é de que as atrações da sexta-feira foram o ponto alto, enquanto o sábado, que concentrava os artistas de maior peso, acabou frustrando parte do público.
Outro fator incômodo foi o alto índice de propaganda política durante os três dias. Era comum ouvir locutores exaltando a prefeitura, o prefeito, o vice, vereadores e deputados como patrocinadores do evento. Para parte dos foliões, o tom foi excessivo e desnecessário. “Não precisa disso mais. O público sabe que um evento desse porte, em uma cidade pequena e pacata, só acontece com apoio do poder público. Repetir isso constantemente é subestimar a memória e a inteligência da população”, comentou um morador.
Por outro lado, também ficou a sensação de que, apesar dos esforços, os organizadores não conseguiram identificar com precisão os gostos musicais da população local e da região. O que toca nas playlists oficiais não corresponde ao que embala os celulares e corações dos moradores de Iramaia e cidades vizinhas. O resultado foi um certo distanciamento entre a festa e a identidade cultural da comunidade, lacuna que precisa ser preenchida em futuras edições.